os trabalhos e os dias vivendo o sonho e a realidade ao mesmo tempo (1)

6Aug/06Off

Songs from a room

Eu consumo muito espaço. Quando aqui cheguei tive de encurralar a cama a um canto, despachar duas mesinhas e trocá-las por uma grande secretária de tampo carcomido. Ganhei o espaço suficiente para caminhar num apertado círculo enquanto ouço os Kaizers Orchestra. Fiquei contente com isso, exponho aqui as fotos do antes e do depois como um troféu da minha batalha.
Depois comprei um bule amarelo, uma caneca amarela, troquei o meu candeiro vermelho pelo amarelo do Ângelo. Imprimi e colei na parede fotografias dos meus santinhos (mas a fita-cola está espapaçada e todas ameaçam cair). Comprei velas esguias made in China que se desfazem rapidamente numa chama alta. Agora é mais o meu quarto.

No dia em que brincámos às fotografias e a distrair a Maddy a Nadine comentou sobre o silêncio da casa, muito diferente da casa dela cheia de gente e crianças a brincar. Contei-lhe que era um dia especial, nos dias normais passa um mundo por aqui; mas toda a gente estava pela praia e os habitantes da casa são silenciosos por natureza ou pelas circunstâncias. Era um dia muito diferente dos normais, em que a casa se enche do ruído do tabaco.

Esses dias especiais são cada vez mais normais agora, Agosto vai levando todos os expats de volta à velha Europa. Os ruídos só chegam do exterior, das festas de fim de semana, dos pneus a chiar, dos galos dos quintais.

Tenho poucas visitas. Os que passam pela casa não sobem as bonitas escadas de madeira escura. Só aqui entram os fantasmas da internet. Fantasmas ou ídolos ou anjos. Não sei o que lhes chamar. Não são pessoas, ou não são pessoas ainda. Não há corpos, vozes, cheiro. São só fotografias, palavras, sinais. Anjos generosos que vão deixando migalhas de si.

Tantos milhões. Algures no mundo alguém tem tempo e paciência. Porquê eu? Hande, Andrea, Berglind, Karen, Santa. Durmo.

moxi iana tutu wana
cada passo pesa
no caminho errado

moxi, iana, lança a carta
fala, acorda, quase tropeças
na areia de enganos

Encontrei este poema nesta cidade há 10 anos, ainda antes da grande guerra. Não sei se as palavras em Quimbundo se escrevem assim. Regresso a Cohen: "He was just some Joseph looking for a manger".

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