os trabalhos e os dias vivendo o sonho e a realidade ao mesmo tempo (1)

24Jan/06Off

[poema escrito na manhã em que tirei a foto ali acima]

a manhã sentou-se, ofegante e cansada
como uma dança acabada

o mundo esqueceu os chamamentos e as flores
saiu em ombros da areia
sem ouvir cada única voz

o calor vadio do passar das horas, ruidoso e perecivel
roendo os sentidos onde se demora o sol

é tarde nesta manhã e a manhã sentou-se

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24Jan/06Off

Cães da Pradaria

Todos reparamos nisso, mas foi o Ângelo que comentou: o empregado do restaurante movia-se inquieto, esperava os nossos pedidos olhando para todo o lado à sua volta: para nós, para o tecto, para as mesas "na sua trás", para o chão, para os lados, todos os lados, nervoso, incessantemente. Como um cão da pradaria. É demasiado novo para ser trauma de guerra, comentámos. Antes, no tempo antes da paz, tinha de se viver assim, atento, alerta, avaliando cada hipótese de perigo, concordámos. Agora não, só pode ser doença, já não há que viver assim, há lojas e já se recolhe o lixo.

Ontem, ao chegar a casa, noite escura, não havia àgua nem um dos 6 mil litros do nosso depósito. A bomba arquejava, arfava em vão. Experimentei todos os disjuntores do quadro até a desligar, a pobre. Devia estar pelo menos ferrada. Investiguei: a torneira de segurança estava fechada, talvez há uma semana, tinhamos gasto toda a água sem nunca reabastecer. Abri a torneira: azar, naquele momento não havia água na nossa parte da cidade. Durante a noite lá acabou por voltar, todos os 6 mil litos a que temos direito, mas de pouco nos serviu de manhã, a bomba recusou-se a ajudar. Muita coisa se pode fazer com os toalhetes poupados da TAP e garrafas de água do Luso.

Nessa manhã fui ao escritório; fica no 17ºandar de um dos prédios mais altos de Luanda. Vista linda, linda. Ao descer o elevador deu uns saltinhos, parou, a luz apagou-se, acendeu novamente, o elevador abanou, parou, a luz apagou e assim ficou. Ainda bem que só estavamos três pessoas ali, pensei. Já aconteceu estes elevadores cairem, pensei a seguir. Procurei o botão de alarme no escuro, mais para me entreter do que por fé na sua eficácia. O tempo passou, não muito. O elevador acordou e desceu com vagar até ao piso térreo.

Sinto-me tentado a escrever aqui alguma coisa, mas não é realmente necessário.

6Jan/06Off

Flying over Akureyri

Akureyri, Iceland.

Last night I dreamt I was flying over Akureyri. I was flying very high at first and could only see mountains and valleys, then came down slowly, descending in large circles over snow and water. Sometimes it was just like the satellite photos on Google Earth, sometimes it was just a white plain near the ocean. I was going down very slowly and I could notice several features of the landscape. I saw the saphire lake among the hills covered with pine trees south of Tangiers in Morocco, I saw the green and damp fields near Santarém where I ran away from the wild bulls, machine gun in hand, when I was a recruit in the army.

Suddendly I was already in the town, flying low and fast among the brightly coloured houses that seemed to be scattered almost randomly, red, light blue, yellow, white. The streets were covered with snow, but it wasn't real now, it was a white powder that seemed like flour and it raised small clouds beneath my feet as I was flying standing up. I was exploring all streets, always turning to the left first, like if I was playing Doom. All the streets where empty, no people, no cars, no trees. All the buildings were like closed boxes and seemed to have no purpose, but were bright and perfect and new.

"I am getting near the water", I thought, because I was feeling more and more cold and my clothes were getting wet. I went across a large muddy empty place and then I was flying across the ocean. The ocean was flat and perfectly still and the water was light blue, almost white. As I moved over the water I began to be afraid that I would stop flying and I would drown immediately. Soon I was in panic, but I could do nothing and was flying straight ahead faster and faster. Then something happened, I can't remember what, and I was again very high, looking down, motionless, trembling.

After that I dreamt about footbal players and drugs and I woke up laughing. [ovst pqnna?]

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5Jan/06Off

Eterno Retorno

Airbus A-340 no aeroporto 4 de Fevereiro

Eu, um Airbus A340 e um naco do dedo do Caleço no Aeroporto 4 de Fevereiro no dia em que saí de Angola.

Estava contente e tinha pastilhas elásticas de todas as marcas e sabores nos bolsos, nada poderia correr mal. Afinal a cada momento nos arriscamos a ser felizes para sempre.

Gosto desta foto, apesar de estar esborratada, como todas as tiradas com o meu telemóvel. Gosto do meu ar ingénuo e feio com a barba demasiado grande, do A340 ainda com a pintura antiga da TAP, do dedo em frente à objectiva numa foto tirada à pressa antes que alguém viesse pedir-nos dinheiro, da roupa trágicamente desadequada ao Inverno português que me esperava. Tem sido a minha imagem do Mailfriends, mesmo com um texto que diz ainda "last Friday" quando "last Friday" já foi algures no fim do ano passado.

Não sei com que cara vou embarcar de regresso a Luanda. Vai ser em breve. Volto diferente, claro. O Caleço não volta, a quem prepararei o GT? Tudo muda, mesmo se às vezes é preciso forçar a mudança. Lembrem-me de levar livros, sim?

sempre coisas que correm mal.

5Jan/06Off

[poema muito, muito, muito antigo]

chave de ouro

existe o tempo, os gatos correm na erva
e à noite vejo luzes de outras cidades.
provo da vida como de uma maçã cheia de fumo.

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4Jan/06Off

o último CD

Niño Rojo - Devendra BanhartO último CD que comprei na minha vida foi o Niño Rojo do Devendra Banhart. É lindo. Foi barato, só 9 euros. Lembro-me disso porque o ofereci à Du ainda com o preço. Não vou comprar mais porque ela não o consegue ouvir. No leitor do carro ainda funciona, mas não no computador portátil. Quer instalar algum software, abre janelas, causa erros, ela não sabe o que fazer. Devia ser simples tocar um disco. Inserir, play, já tá. Devia ser simples oferecer um disco: "toma lá, é para ti", "obrigado, beijinho", "olha, gostei muito do CD que me deste". Mas não. O telefone toca, a Dulce está perplexa, quer ouvir o CD e não consegue. Ela só queria pôr o CD e que ele tocasse enquanto ela trabalha: ela não tem tempo para resolver problemas informáticos. Eu tento, estou longe, não consigo. Para a próxima faço download do disco no SoulSeek e gravo-o, pronto. Não é tão bonito, dá trabalho, mas paciência.

Não sei se estou a fazer o boicote. Estou farto, é só isso.

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