os trabalhos e os dias vivendo o sonho e a realidade ao mesmo tempo (1)

27Nov/05Off

pedaços de um poema esquecido

procuro o mar com os bolsos cheios de pedras
encontro a onda turva de lodo e tubarões
acolho-me nesse abraço indiferente e frio
perco o pé, as palavras
que pare o pensamento, que não respire
corpo inerte e negro que nenhuma vida já ilumina

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27Nov/05Off

Barra do Dande

baía do Dande

Caminhando pela praia não te vi, não te vi espantando os caranguejos velocíssimos, não te vi saltando os troncos de palmeira caídos, não te vi apanhando seixos brancos, caminhando pela praia não te vi no mais fundo da baía onde as tartarugas marinhas boiavam mortas na ínfima rebentação. Não viste a areia tornar-se roxa, depois lilás, não sorriste quando passaram os abutres, nem te detiveste quando a falésia cortou areia e mar. Só eu apanhei estranhos frutos da água turva, as garças escuras só fugiram pesadamente de mim, mais ninguém se sentou na rocha amarela esquecido de regressar.

24Nov/05Off

Tarde demais

os poemas não me encontram
nesta torre sobre a cidade
no arfar motorizado da noite
chegam e já não moro aqui
tarde demais, para que os ouça é tarde demais
flores fora do tempo que o verão colhe
com a sua mão de fogo

o sangue acelera sobre a cidade
não cabe no corpo estreito
é tarde demais, já não alcanço o coração
perde-se na cidade negra
canta louco na cidade aberta e revolta
perde-se nessa cama desfeita
na casa em que ninguém mora

não verdade não estou aqui
quem escreverá os poemas?

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24Nov/05Off

ladrão

Um autocarro trava, gritos, cabeças das janelas, já vem um polícia, dois, um rapaz esfarrapado entre eles, pistolas na mão. Chovem coronhadas, o polícia golpeia incessantemente o rapaz com a pistola enquanto o arrasta para a carrinha de caixa aberta. Já subiu, recebendo sempre mais golpes, já vai sentado no banco de madeira entre os policias armados com metralhadoras, cabeça baixa, chovem coronhadas, a carrinha arranca, desaparece.

"Quando chegar à esquadra é que ele vai levar porrada!" alguém diz.

23Nov/052

os galos de Luanda

os galos de Luanda enrouquecem
a todas as horas da noite, violentos como cães
cantam-se, cantam os seus amores, as suas penas
lançam ao ar como uma semente
a canção curta de amor e cio

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22Nov/052

Perdoa-me

transeunte desprevenida e despenteada em luanda

Perdoa-me, rapariga desprevenida e despenteada. Perdoa-me, feia. Eu não te vi, juro que não te vi. Só queria fotografar o cabeleireiro, o anúncio ingénuo e exótico. A Beatriz Costa do Morro Bento. Só pensava em pressionar o botão da câmara alheia antes que alguém visse, antes que um candongueiro ultrapassasse pela direita tapando a vista, antes que o nosso carro rastejasse para fora dali. Queria poder fechar a janela e voltar ao conforto do ar condicionado, eu nem olhei, eu não te vi.

Perdoa-me se continuo a sorrir, se mando esta foto para os meus amigos, se a mostro aqui.

21Nov/053

Irmã Barata

barata morta de patas erguidas
triste camarada nas escadas vazias
bebeu e dançou, embriagou-se do mundo
comeu o que quis no banquete de veneno
subiu três lances, rezou e dormiu
a morte a descobre, impúdica, obscena.

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21Nov/050

A visita da Poesia

Era uma e pouco quando acordei, "meia-noite em Portugal", pensei eu. Ainda nunca tinha acordado tão cedo, contei as horas que faltavam até sair para a rua: sete. Tive medo. Já não tinha cerveja na geleira. Um telefonema, uma bolacha, uma e meia. Que fazer? Então visitou-me a poesia, visitou-me com vagar como há muito não fazia. Escrevi 5 poemas, o último quando já se buzinava na rua.

São maus. São feios e desengonçados como crias de andorinha, coisas incertas que ameaçam desfazer-se em nada no chão.

A seguir fica o que mais me enternece, o que dedico à barata que encontrei ao entrar em casa. Irmã barata! Não,não falo de ti, Eduarda.

Se calhar por isso deitei hoje fora toda a tralha que aqui tinha acumulado e começo a escrever de novo nesta mesa limpa.

21Nov/050

Por Acidente

O meu primeiro acidente de viação em Luanda foi suave, confuso, patético. No regresso do almoço um carro escuro ultrapassa-nos pela esquerda, em contra-mão: era um espacinho exíguo mesmo para aquele Toyota Corolla, avançavam duas filas de carros, bateu com estrondo no espelho da nossa carrinha. O espelho virou, não partiu, algo estava solto e pendia.

O Toyota não parou e o nosso motorista ligou os quatro piscas, meteu em contra-mão, buzinando, gesticulando, aproximando-se aos poucos do pequeno carro onde alguém fingia ignorar o que se passava. Rasou pelo seu flanco, encostado, encostado, achei-me lado a lado com o condutor: era um militar de camuflado que conseguiu acelerar e guinar para a nossa faixa, seguiu. Defronte chegava uma carrinha cheiinha de polícias de metralhadoras ensonadas, fingiram interessar-se pelos sinais de H., o motorista, e seguiram o seu caminho.

A grande velocidade, num ponto da marginal mais liberto de trânsito, H. conseguiu ultrapassar o carro e foi travando à sua frente, ziguezagueando para impedir as suas tentativas de se escapar pelos flancos. Parou a meio das duas faixas, foi ao encontro do tropa que já saia disparado: estava perdido de bêbado, todos o registamos ao mesmo tempo. Seguiu-se uma longa e incompreensível discussão, a dois inicialmente, depois com um anafado polícia de trânsito que parou a sua moto à frente dos nossos dois carros, aumentando o cortejo de que os carros se desviavam sem abrandar, passando por ambos os lados.

O polícia não parecia muito interessado em tomar parte no assunto. Era natural, havia um militar envolvido, mesmo bêbado era um militar. Ainda não sei identificar as patentes locais, tinha uma estrela dourada nas divisas. Começava a chover, cheirava intensamente a esgoto naquela marginal linda. Ângelo saiu e rápidamente conseguiu voltar a encaixar todas as peças do espelho; estava bom. A fúria do nosso motorista ficou um pouco aplacada, voltou ao carro, tinha confiscado por sua iniciativa o cartão de identificação do Exército. Os rapazes descalços que assistiam prognosticaram com segurança: "Tu vais morrer".

Tinha hoje começado a usar o cinto de segurança. Ainda não foi necessário, talvez amanhã.

[actualização: era major]