os trabalhos e os dias vivendo o sonho e a realidade ao mesmo tempo (1)

19Dec/05Off

[poema escrito num Airbus A340]

chama-se solidão, última a partir
primeira a chegar
à festa do coração

Agora em Islandês:

nafnið hennar er einsemd, síðust til að yfirgefa
fyrst til að koma að
partíi hjartans.

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1Dec/05Off

Futuro

esperança ou medo, o amanhã adivinha-se
uma luz que aquece, queima
que acorda o mundo num grito

se precisares de conforto
guarda na mão essa brasa
lavada na água do céu

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27Nov/05Off

pedaços de um poema esquecido

procuro o mar com os bolsos cheios de pedras
encontro a onda turva de lodo e tubarões
acolho-me nesse abraço indiferente e frio
perco o pé, as palavras
que pare o pensamento, que não respire
corpo inerte e negro que nenhuma vida já ilumina

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24Nov/05Off

Tarde demais

os poemas não me encontram
nesta torre sobre a cidade
no arfar motorizado da noite
chegam e já não moro aqui
tarde demais, para que os ouça é tarde demais
flores fora do tempo que o verão colhe
com a sua mão de fogo

o sangue acelera sobre a cidade
não cabe no corpo estreito
é tarde demais, já não alcanço o coração
perde-se na cidade negra
canta louco na cidade aberta e revolta
perde-se nessa cama desfeita
na casa em que ninguém mora

não verdade não estou aqui
quem escreverá os poemas?

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23Nov/052

os galos de Luanda

os galos de Luanda enrouquecem
a todas as horas da noite, violentos como cães
cantam-se, cantam os seus amores, as suas penas
lançam ao ar como uma semente
a canção curta de amor e cio

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21Nov/053

Irmã Barata

barata morta de patas erguidas
triste camarada nas escadas vazias
bebeu e dançou, embriagou-se do mundo
comeu o que quis no banquete de veneno
subiu três lances, rezou e dormiu
a morte a descobre, impúdica, obscena.

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