os trabalhos e os dias vivendo o sonho e a realidade ao mesmo tempo (1)

19Aug/100

Julieta Tango

Julieta Tango, vaidosa e tagarela
o olhar errante, fútil e letal

a voz demasiado explícita, rouca e masculina
vibrante de canto
de distorções abruptas

um desejo bestial; ou inumano - inocultável.

[Mais aqui sobre uma das grandes paixões da minha vida...]

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12Jul/100

[poema escrito num bilhete de cinema]

lisboa, o espectro do inverno
já não cabe na garra aberta do vento
sobre nós, os desta cidade, timoratos
precipitadamente se deita a chuva

o frio caiu, com amor e violência
empurrado do céu: escondes-te agora
água de fevereiro, muda de medos;
rápido como granizo se destrói todo pensamento

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9Jul/100

City of Liverpool

Navio vermelho que a ferrugem persegue entre Felixstowe e Walvis Bay
deixa o Tejo ao tempo e aos obscenos pombos
aos dias impotentes que não deixam a foz
deixa as águas que levam corpos
cansados até à morte
perseguidos e imóveis como Cristo
O rio esconde-se numa capa mole
escura como o dorso de um tubarão - viste-o?
deixa atrás só a água que se abre
como o baralho de cartas atirado sobre a mesa
agora que todo o dinheiro e sono foi perdido
navio, levanta-te e anda, é noite ainda.

Poema antigo, talvez de noventa e cinco? O navio chamava-se City of Liverpool entre noventa e cinco e noventa e sete, quando foi rebaptizado African Senator. Começou a vida em oitenta e dois já se chamou Campania (várias vezes), Red Sea Equinox, Arbitrator, CGM Languedoc e agora é o DD Success e já não é vermelho. É verdinho. Mas ainda é perseguido pela ferrugem, a ferrugem nunca dorme.



Não sei se é o mesmo City of Liverpool que foi atacado pelos rebeldes Tamil do Ceilão há uns anos. Hoje, nove de Julho de 2010 está ancorado no Mar Amarelo (mais propriamente no Mar de Bohai), perto de Pequim, longitude 119.1441, latitude 39.14851. Curioso leitor, podes seguir as andanças deste velho cargueiro aqui.

Obrigado à Anne-Marie pela foto.

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1Jul/100

[continuo a gostar deste poema]

Bebedor de sonhos, os dentes cravados
no barro amargo da taça que se volta agora
bebedor de grandes tragos, a boca cravejada
de pérolas
a taça voltada no mármore
és tu agora
quem derrama o vinho
navio emborcado na lama da foz
não renoves a mão, todo o gesto de erguer a taça

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22Jul/06Off

[poema escrito numa cisterna em 1994]

porque vais fugindo na noite
como um ladrão?
Fugindo da montanha da lua
onde a tua sorte foi revelada
para a noite em que nada aquecerá o teu coração.

Escutaste no escuro as rumorosas vozes do futuro
e é um lugar onde já estiveste
a casa construída e abandonada
habitação de medo

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10Feb/06Off

[poema preferido]

voam com exagerado esforço os corvos-marinhos
como quem insiste em agradar
em fila errante, mágoas que se perseguem
deitando-se quase na cama revolta do rio
corações de espanto em negras penas envoltos
fogem aturdidos da felicidade.

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3Feb/06Off

[poema explicado à Ralu]

todo o inverno temos laranjas
amigas altivas em braços negros erguidas
lavadas na água do céu

jóias de ouro jorram entre espinhos
recebidas em sossego,
presente de reis

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24Jan/06Off

[poema escrito na manhã em que tirei a foto ali acima]

a manhã sentou-se, ofegante e cansada
como uma dança acabada

o mundo esqueceu os chamamentos e as flores
saiu em ombros da areia
sem ouvir cada única voz

o calor vadio do passar das horas, ruidoso e perecivel
roendo os sentidos onde se demora o sol

é tarde nesta manhã e a manhã sentou-se

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5Jan/06Off

[poema muito, muito, muito antigo]

chave de ouro

existe o tempo, os gatos correm na erva
e à noite vejo luzes de outras cidades.
provo da vida como de uma maçã cheia de fumo.

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28Dec/05Off

[poema que faz agora um ano]

cidade vermelha ferida de ruína
muralha mordida mil vezes pelo tempo
acolhe corvos, serpentes, nas tuas silvas negras
velha mãe de cada criatura, regaço frio,
ventre sujo e exausto de onde o deserto nasce
arde na luz sangrenta da lua
brasa que o vento afoga num mar de cinza

vôa morcego - pequeno, quente, negro - como um coração

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